O Aeroporto Internacional de Belém – Val-de-Cans / Júlio César Ribeiro é muito mais do que um ponto de embarque e desembarque. Ele representa a principal porta de entrada aérea do Pará e um dos pilares logísticos da Amazônia, conectando moradores e visitantes a destinos nacionais e internacionais, além de sustentar cadeias econômicas vitais para a região. Ao longo de quase um século, o Aeroporto de Val-de-Cans acompanhou transformações históricas, políticas e culturais que moldaram Belém e projetaram a Amazônia para o mundo.
Com os códigos BEL (IATA) e SBBE (ICAO), o aeroporto carrega um legado que antecede a aviação comercial moderna. Sua localização estratégica o colocou no centro de decisões globais durante a Segunda Guerra Mundial e, décadas depois, o consolidou como o maior hub aéreo da Região Norte.

As origens de Val-de-Cans e o porquê do nome
O nome Val-de-Cans antecede a própria existência do aeroporto e está diretamente ligado à formação histórica e geográfica da região onde o terminal foi implantado. Antes da urbanização e da chegada das pistas de pouso, a área era ocupada por fazendas e propriedades rurais, situadas em uma zona então afastada do centro de Belém.
Entre essas propriedades, havia locais conhecidos como “canis”, destinados à criação de cães utilizados para guarda e atividades rurais. Com o tempo, a expressão popular passou a identificar todo o vale da região, originando a denominação Val-de-Cans, que se consolidou no vocabulário local ainda no início do século XX. Quando o aeródromo começou a ser implantado, o nome já era amplamente utilizado pela população, sendo naturalmente incorporado à identidade do aeroporto.
A escolha da área de Val-de-Cans para sediar o aeroporto não foi casual. O terreno apresentava características ideais para a aviação, como grandes áreas planas, boa ventilação natural, proximidade com a Baía do Guajará e localização estratégica em relação às rotas aéreas do Atlântico. Esses fatores foram determinantes para que o local se tornasse, primeiro, um aeródromo e, posteriormente, o principal terminal aéreo da Amazônia Oriental.
Mesmo após a oficialização do nome Aeroporto Internacional de Belém – Val-de-Cans / Júlio César Ribeiro, a expressão Val-de-Cans permaneceu viva no cotidiano da cidade, sendo utilizada até hoje como referência geográfica, histórica e cultural. Assim, o nome do aeroporto preserva a memória do território original, conectando o passado rural da região ao papel estratégico que Belém passou a desempenhar na aviação nacional e internacional.
O nome oficial do aeroporto homenageia Júlio César Ribeiro de Souza, engenheiro e inventor paraense do século XIX e um dos pioneiros mundiais da dirigibilidade aérea. Muito antes da consagração de Santos Dumont, Júlio César dedicou-se ao estudo de balões dirigíveis, defendendo que aeronaves mais leves que o ar poderiam ser controladas com eficiência por meios mecânicos.
Seus estudos ganharam repercussão internacional, especialmente na Europa, e o colocam entre os grandes nomes da ciência aeronáutica do período. Ao adotar seu nome, o aeroporto reafirma a contribuição amazônica para a história da aviação e preserva a memória de um inventor que antecipou conceitos fundamentais do voo controlado.
Belém no cenário mundial: a Segunda Guerra Mundial
Durante a Segunda Guerra Mundial, Belém passou a ocupar uma posição estratégica de importância global, e o então aeródromo de Val-de-Cans tornou-se peça fundamental no sistema de apoio aéreo das forças aliadas. A localização da capital paraense, próxima ao ponto mais oriental do Brasil e em posição favorável para travessias do Atlântico, colocou a cidade no centro das rotas militares que ligavam a América do Sul à África e à Europa.
Nesse contexto, Belém integrou a chamada “Rota da Vitória”, um corredor aéreo utilizado para o deslocamento de aeronaves, tropas, suprimentos e equipamentos militares durante o conflito. Empresas norte-americanas, com destaque para a Pan American Airways (PanAm), participaram diretamente da construção e ampliação das pistas e das instalações operacionais em Val-de-Cans, em cooperação com o governo brasileiro e com a Aeronáutica.
A infraestrutura implantada tinha foco essencialmente militar. O aeródromo passou a receber aviões de patrulhamento, transporte e apoio logístico, além de desempenhar papel relevante na vigilância do litoral amazônico e na proteção das rotas marítimas contra ameaças inimigas. A presença constante de aeronaves e pessoal estrangeiro transformou a dinâmica local e inseriu Belém, de forma inédita, no cenário geopolítico internacional.
Com o fim da guerra, em 1945, a importância militar de Val-de-Cans diminuiu gradualmente. No entanto, o legado deixado por esse período foi decisivo para o futuro do aeroporto. As pistas ampliadas, os sistemas de apoio e a experiência operacional adquirida serviram de base para a transição do aeródromo militar em um aeroporto civil estruturado. A partir daí, Val-de-Cans consolidou-se como o principal elo aéreo da Amazônia com o restante do Brasil e com o mundo, mantendo viva a herança de um período em que Belém esteve diretamente conectada aos grandes acontecimentos do século XX.
A evolução do terminal ao longo das décadas
A evolução do terminal do Aeroporto Internacional de Belém – Val-de-Cans / Júlio César Ribeiro acompanha de perto o crescimento urbano, econômico e turístico da capital paraense, refletindo as diferentes fases da aviação civil no Brasil e o papel estratégico de Belém na Amazônia.
Após o período da Segunda Guerra Mundial, quando Val-de-Cans teve uso predominantemente militar, iniciou-se a transição definitiva para a aviação civil. Em 1959, foi inaugurado o primeiro terminal definitivo voltado ao atendimento de passageiros, sob administração da Aeronáutica. Essa estrutura passou a organizar o fluxo de embarques e desembarques, consolidando o aeroporto como principal porta de entrada aérea do Pará.
Nas décadas de 1970 e 1980, o terminal passou por adequações operacionais para atender ao aumento gradual da demanda por voos comerciais. A expansão da malha aérea nacional e a popularização do transporte aéreo exigiram melhorias em áreas de check-in, salas de embarque, restituição de bagagens e serviços básicos ao passageiro. Esse período coincidiu com a expansão urbana de Belém e com o fortalecimento do aeroporto como elo de integração regional.
Durante os anos 1990, o crescimento do turismo cultural e religioso, impulsionado por eventos como o Círio de Nazaré, ampliou significativamente o fluxo de passageiros. O terminal passou a operar próximo ao seu limite de capacidade, evidenciando a necessidade de uma modernização mais profunda, tanto do ponto de vista funcional quanto arquitetônico.
Essa transformação ocorreu no início dos anos 2000, com a grande reforma inaugurada em 2001. O novo terminal trouxe um conceito moderno, com amplos espaços, uso intensivo de vidro e estrutura metálica, maior entrada de luz natural e melhor conforto térmico. Além de melhorar a experiência do passageiro, a reforma reposicionou o Aeroporto de Belém no cenário nacional, tornando-o referência em arquitetura aeroportuária e símbolo de modernidade urbana.
Desde então, o terminal vem passando por atualizações pontuais e melhorias operacionais, acompanhando as exigências da aviação contemporânea, o crescimento do transporte de cargas e a ampliação das conexões internacionais. A concessão à iniciativa privada, iniciada em 2023, abriu um novo capítulo nessa trajetória, com perspectivas de novos investimentos em tecnologia, serviços e expansão da infraestrutura.
Assim, a evolução do terminal de Val-de-Cans não se limita a mudanças físicas. Ela representa a adaptação contínua do aeroporto às necessidades da Amazônia, conectando tradição e modernidade e reafirmando seu papel central na mobilidade aérea do Norte do Brasil.

A revolução arquitetônica de 2001
O ano de 2001 marcou um dos momentos mais emblemáticos da História do Aeroporto de Belém. Foi nesse período que o Aeroporto Internacional de Belém – Val-de-Cans / Júlio César Ribeiro passou por uma profunda transformação arquitetônica, que redefiniu completamente a imagem do terminal e o posicionou entre os aeroportos mais modernos e visualmente marcantes do Brasil.
A reforma teve como principal objetivo modernizar a infraestrutura e melhorar a experiência do passageiro, levando em consideração as particularidades climáticas da região amazônica. O novo projeto apostou fortemente no uso de vidro, estrutura metálica e grandes vãos, permitindo maior entrada de luz natural e melhor circulação de ar, o que contribuiu para o conforto térmico em um ambiente naturalmente quente e úmido.
Um dos grandes diferenciais do novo terminal foi a integração entre arquitetura e identidade regional. O paisagismo interno passou a valorizar espécies da flora amazônica, criando um ambiente que remetia à natureza local e reforçava o caráter simbólico do aeroporto como portal da Amazônia. Essa escolha transformou o espaço em algo mais do que funcional, tornando-o acolhedor e representativo da cultura regional.
Outro destaque da reforma foi a criação do terraço panorâmico, que rapidamente se tornou um ponto de referência urbana em Belém. Além de permitir a observação das operações aeroportuárias, o espaço passou a integrar o cotidiano da cidade, sendo lembrado como um dos elementos mais icônicos do terminal.
Com essa remodelação, o Aeroporto de Val-de-Cans deixou de ser apenas um equipamento de transporte para se tornar um símbolo de modernidade, orgulho urbano e identidade amazônica. A revolução arquitetônica de 2001 não apenas ampliou a capacidade operacional do aeroporto, como também consolidou sua imagem como um dos terminais mais bonitos e representativos do país, unindo funcionalidade, estética e pertencimento cultural.
O futuro: a concessão para a NOA Airports
Em 2023, iniciou-se um novo ciclo com a transição da gestão da Infraero para a concessionária Norte Amazônia Airports (NOA). A concessão marcou o início de uma fase voltada à eficiência, inovação e melhoria contínua dos serviços.
A expectativa é de investimentos em tecnologia, acessibilidade, conforto e expansão, preparando o Aeroporto de Belém para acompanhar o crescimento do turismo, da carga aérea e das conexões internacionais nos próximos anos.
Todos os anos, o aeroporto vive um de seus momentos mais emocionantes com a recepção da imagem peregrina do Círio de Nazaré. O terminal transforma-se em espaço de fé e devoção, reunindo fiéis e visitantes em um ritual que simboliza a profunda ligação entre o Aeroporto de Belém e a cultura religiosa do Pará.
Ficha técnica do Aeroporto Internacional Júlio César Ribeiro
• Localização: Belém, Pará, Brasil
• Nome oficial: Aeroporto Internacional de Belém – Val-de-Cans / Júlio César Ribeiro
• Área total do sítio aeroportuário: aproximadamente 6.022.000 m²
• Área do terminal de passageiros: cerca de 33.000 m²
• Capacidade anual: compatível com a demanda regional e internacional, atendendo voos domésticos e internacionais
• Pista principal: 06/24 – aproximadamente 2.800 m x 45 m
• Pátio principal: área operacional para aeronaves comerciais de médio e grande porte
• Pátio secundário: área destinada à aviação geral, cargueira e apoio operacional
• Posições de estacionamento de aeronaves: cerca de 29 posições
• Terminal de cargas: estrutura dedicada para operações logísticas da Região Norte
• Vagas de estacionamento para veículos: estacionamento oficial do aeroporto com vagas para curta e longa permanência
• Equipamentos de acessibilidade: rampas, sanitários adaptados, circulação acessível e apoio a passageiros com mobilidade reduzida
• Auxílios à navegação aérea: ILS Categoria I, VOR e NDB
• Operação: diurna e noturna
• Administrador: Norte Amazônia Airports (NOA)
• Concessão: iniciada em 2023, dentro do bloco de concessões aeroportuárias da Região Norte
